O embranquecimento da mulher preta através da estética

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A autoestima da população preta está alinhada com a manutenção da saúde mental. Uma vez em que o racismo é o processo de dominação mental com o propósito de incapacitar e invalidar um indivíduo. Logo o embranquecimento faz parte deste processo de dominação, sendo consolidado de forma social e moral. Constituindo-se de diversas formas principalmente silenciando e assim validando-se com a interiorização dos modelos culturais do colonizador e estimulando na população preta a perda de seu Ethos (costumes de um povo) de matrizes africanas. E enfatizando,posicionando os padrões sociais, morais e estéticos.

Sabemos que o Brasil foi colonizado pelos portugueses e que os índios já viviam aqui, os portugueses chegaram aqui no Brasil tentaram escravizar os índios alguns eles conseguiram através do intermédio da Igreja e outros não pois como detentores do conhecimento territorial, saíram da rota do domínio português.

A Escravização do povo africano se dá após 600 anos de resistência para a não dominação do homem branco. E esse processo de tráfico se dá a partir do desenvolvimento bélico. Contudo mesmo após a dominação e escravização a população africana manteve o seu Ethos ativo a partir da oralidade e mantendo a cultura em memória.

No ano de 2013 O Núcleo de Pesquisa em História econômica e demográfica da Universidade Federal de Minas Gerais – NPHED/UFMG, e a Fundação de Amparo à pesquisa do Estado- Fapemig, disponibilizaram o Censo completo da população escravizadas de 1872 com parte de políticas inovadoras de Dom Pedro Primeiro II.

Os resultados apresentados no censo constataram que do total de 10 milhões de habitantes, a população escrava correspondia apenas 15,24% do total. De acordo com o levantamento 58% da população se declarava preta, e apenas 38% correspondia a Brancos os outros 7,8% eram de estrangeiros, e indígenas.

Em 1872 O País já pensava em abolir a escravidão entretanto uma de suas estratégias de solução para o povoamento predominante negro era o branqueamento da população. Após a abolição da escravidão foram tomadas diversas medidas políticas para gerar a extinção dos negros no Brasil . entre a segunda metade do século 19 e a primeira metade do século 20 houveram diversas teses eugenistas teses que defendiam um padrão genético superior para a raça humana essas teses defendem a ideia de que o homem branco europeu tinha um padrão melhor, de saúde, beleza e melhor competência civilizacional em comparação aos outros povos não- brancos.
O antropólogo e médico carioca João Batista de Lacerda foi um dos principais expoentes da tese do embranquecimento entre os brasileiros tendo participado em 1911 do congresso universal de raças em Paris Batista, onde apresentou o artigo” sobre os mestiços do Brasil” (tradução livre) Que defendia fator da miscigenação como algo positivo no caso brasileiro por conta da sobreposição dos traços da raça branca sobre outras não – brancas.

Haviam diversos intelectuais que compactuavam com o pensamento de João Batista E serviam como teses decorrentes para validar e justificar o neocolonialismo.

Em 1895 Modesto brocos pintor espanhol fez um quadro que se chama “A Redenção de cam” cuja imagem transmite categoricamente a tese de João Batista. Assim defendendo o embranquecimento das Gerações.

Brocos propõe a diluição da cor preta na sucessão de descendentes em série e nesta suspensão a redenção e absolvição de uma raça adequada,

isto é a descendência de cam filho de Noé,em que no Livro do Gênesis é amaldiçoado pelo pai. E a história despeito de seus simbolismos bíblico foi interpretada à revelia pelo racionalismo do século 19 no qual brocos estava envolto, tentando gerar a falsa sensação de que clareando a população negra com a miscigenação de brancos a maldição estaria extinta.

Os resquícios da era eugenista foram perpetuados de geração a geração, assim contribuindo para a desenvoltura do mito da democracia racial.

Deste modo “ O Branco não é apenas favorecido nesta estrutura racializada, mas é também produtor ativo dessa estrutura, através de mecanismos mais diretos de discriminação e da produção de um discurso que propaga a democracia racial e o embranquecimento.Esses mecanismos de produção de desigualdades raciais foram construídos de tal forma que asseguram aos brancos a ocupação de posições mais altas na hierarquia social sem que isso fosse encarado como privilégio de raça.Isso Porque a crença da democracia racial isenta a sociedade brasileira do preconceito e permite que o ideal liberal de igualdade de oportunidade seja apregoado como realidade.Desse modo, a ideologia racial oficial produz um senso de alívio entre os brancos, que podem se isentar de qualquer responsabilidade pelos problemas sociais da população não branca” ( Bento, Psicologia Social do Racismo, 2002)

Com a interiorização dos modelos culturais impostas pelo o colonizador a população preta começa a se dissipar e a criar métodos introdutórios na sociedade. Sendo assim consecutivamente as característica dos processos de clareamento de pele , alisamentos dos cabelos, foram se tornando como porta de entrada ao mundo moderno, saudável e bonito. Onde nesse processo o ethos da matriz africana, continuou sendo renegada e classificada como não civilizada.

Dentro deste processo de dominação e embranquecimento da população preta conseguimos compreender o preterimento do homem preto quanto a mulher preta
A partir do Trecho de O homem de cor e a branca composto no livro Pele negra máscaras brancas. de Frantz Fanon:

“ Da parte mais negra de minha alma, através da zona de meias-tintas, me vem este desejo repentino de ser branco.Não quero ser reconhecido como negro, e sim como branco.Ora- e nisto há um reconhecimento que Hegel não descreveu- quem pode proporcioná-lo, senão a branca? Amando-me ela me prova que sou digno de um amor branco. Sou amado como um branco. Sou um branco.
Seu amor abre-me o ilustre corredor que conduz à plenitude…
Esposo a cultura branca, a beleza branca, a brancura branca.
Nestes seios brancos que minhas mãos onipresentes acariciam, é da civilização branca, da dignidade branca que me aproprio.”

Validando-se assim a busca por aceitação, em parecer branco facilita ilusoriamente para o homem preto ser aceito na sociedade. O desejo de embranquecer- se e auto negação da própria raça e cultura, sem com que isto seja visto como um problema. E mais uma vez legitimando a cultura da aceitação da democracia racial, e da miscigenação como um fator cultural natural. Mesmo com a população titubeando para o caminho do conhecimento dos fatos e de suas origens.

No Brasil segundo IBGE 53,6% da população preta, luta contra as mazelas e atrocidades causadas pela complexibilidade de um sistema chamado: Racismo.

E porque falar do embranquecimento da mulher preta através da estética?

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Porque a tomada de consciência de uma mulher preta é naturalmente acordada na infância, pela não visibilidade e representatividade composta por um padrão de beleza social. Onde a população negra não detém poder e influência na sociedade e todo o contexto de aceitação estética são impostas com base eurocêntrica. Logo todos costumes africanos mantidos em memória através da oralidade foram silenciados , mantidos como primitivos e para ser atrativo e atender as expectativas da população branca intitulado como Exótico, desta forma quanto mais distorcida e longínqua for estética preta com a matriz africana, mais próxima fica do enquadramento aceitável para a sociedade branca.

Fazendo-se assim com que mutilamos nossa beleza in natura para fazer parte.
afinando o nosso nariz, diminuindo os nossos lábios, e puxando os olhos.

Quanto mulher hoje lutamos para que a sociedade e indústria da beleza respeitem a nossa tonalidade de pele e cultura e por fim destruam a eugenia.

Falando de maquiagem especificamente, sabemos que devido a miscigenação temos diversos tons de peles principalmente as negras. A ideia é realçar e enaltecer a beleza natural , a função da base camuflar imperfeições e deixar a pele no tom exato.

O Processo de clareamento se torna nítido dentro da maquiagem quando é atrelado a área do audiovisual, fotografias com o uso de flash e tratamento enfatizam o reflexo a cor branca, por isto as bases utilizadas em estúdio não contém fator de proteção, pois o dióxido de titânio que é componente principal do protetor não absorve cor.

O pó facial e o pó translúcido dependendo da tonalidade da pele não favorece, apenas se torna uma das principais causas de embranquecimento.

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A maquiagem é um artefato de embelezamento e potencialmente o caminho para a busca da auto-estima isto atrelando-se ao conhecimento sobre si próprio e suas raízes. Não devendo ser fator determinante para o clareamento e sim como a realce da sua beleza.

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“ Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí? “ – Me gritaram negra” (Victoria Santa Cruz)

Direção de arte: Rás Akanni
Concepção Criativa:Rás Akanni
Fotógrafo: Rás Akanni
Co- Criação: Caio Menezes
Maquiagem e produção: Carol Romero
Concepção Teórica e desenvolvimento textual: Carol Romero
Tratamento e edição: Wanessa Yano
Modelo: Nérida Cocámaro

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