Mas será, que estou me apropriando de uma cultura que é minha?

“Deixa, deixa, deixa, eu dizer o que penso desta vida preciso demais desabafar…”

A introdução deste texto me faz a voltar a alguns pontos tão certeiros quanto ao maracatu de Chico Science .
Dado a este momento quatro anos de Ayê o ponto X da questão que por muitos lugares onde andei me tornei uma persona non  grata, por ter certas ideologias, e por algumas vezes não pensar em osmose.

Introduzo meu texto com a frase de Solano Trindade , repetida diversas vezes e talvez mais conhecida por Raquel Trindade.

” Pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte ” 

E talvez não tenhamos feito isso, e talvez se tivéssemos hoje não teria uma moça  Africana dizendo não se apropriem das roupas, e das pinturas tribais.

A verdade é que há muita gente utilizando pinturas faciais, expondo a sua criatividade , ou copiando sem saber o que é, e sem saber a tamanha importância disto para algumas pessoas.

O texto Can Black people culturally appropriate one other? –  Pessoas Negras podem se apropriar de outras? da Africana Zipporah Gene, tocou muita gente na ferida, revirou a cabeça de muita gente por aqui. ( se você não leu , pode ler traduzido na fanpage traduzindo empoderamento , só clicar aqui )

Meu pensamento sobre o assunto é:

Acontece que muita, muita gente ainda não entende exatamente o que é a Apropriação Cultural, e como ela acontece, isto faz com que muitas vezes ataquemos quem não tem nada haver com isto.

Ex: Logo após a publicação do texto, pessoas que estão inseridas ao Pan Africanismo foram ferozmente atacadas sendo acusadas de Apropriação cultural.

Ponto um, essas pessoas que atacaram não entendem o que é apropriação cultural, ponto dois eles mal sabem o que é o Pan Africanismo.

E acaba rolando de Minoria atacar minoria, oi?! E ponto e o foco principal continua lá inalterado.

O ponto X da questão da Zipporah Gene  referente as roupas, e os tecidos não é a Apropriação cultural, mas sim contexto de propriedade intelectual.

Quando em seu artigo ela menciona :  Yes, I know that African-inspired prints are poppin’ right now and many African designers have chosen to showcase certain styles to the global fashion scene, but it appears to me and my African friends that it’s been taken a step further. I understand that, for the most part, many of my own Black American friends are well meaning when they talk about African fashion, but the end result is still the same

Sim, eu sei que estampas inspiradas em padrões africanos estão “bombando” no momento e muitos designers africanos optam por mostrar alguns estilos à cena global de moda, mas parece para mim e para alguns amigos africanos que isso está indo além. Entendo que, em sua maioria, muitos de meus amigos negros americanos tem boas intenções quando falam sobre moda africana, mas os resultados terminam sendo os mesmos “

E o mesmo tem acontecido por aqui, entendam a moda Afro-brasileira está em construção, passamos por períodos mutiladores em nossa história , de fato não conseguimos enxergar o óbvio,  passamos por quase 300 anos de escravidão, e até os dias de hoje a população negra tem tido o seu desenvolvimento escasso , totalmente  carente de infra estrutura básica.  Os mais novos tem tomado a frente e feito a mudança.

Quando eu escrevi sobre 7 mulheres que faziam moda na primeira pessoa é para dizer isto. E se você parar para analisar nenhuma delas tem mais de 70 anos; conseguem me entender?

 Ela diz ” Mas os resultados terminam sendo os mesmos “

E para que eu pudesse chegar a tal ponto eu mesma  comecei a questionar o meu trabalho, dentro da Ayê
e observar se não estava fazendo o mesmo quanto empreendedora.  E isto interferiu muito no meu trabalho, foi exatamente onde eu busquei  um viés alternativo para mantê-lo, esse foi o ponto chave  para que eu  fosse atrás da minha identidade quanto criadora, e quanto mulher negra.

Acontece, que não podemos inibir isto! E acontece comigo, com você e com várias outras pessoas. A necessidade de termos algo que nos deixe próximos a nossas crenças religiosas, sociais ou políticas, É a ausência desta representatividade por meio destas insígnias, que faz com que olhemos coisas que nos inspiram e  remetem a esta herança cultural  pelo qual amaríamos ter  e reproduzimos, compramos um lindo tecido africano vamos a uma costureira,mostramos a foto e Plaaaau!  E estamos prontos para desfilar. Sem nos aprofundarmos na atmosfera  criativa e recriarmos algo novo, algo diferente.

Entenda o texto não diz: ” Não usem” o texto diz: ” Não façam igual”

A Questão da Apropriação Cultural.

Primeiro que muito se debate sobre apropriação e muitas vezes a discussão não tem fim, vira um rio de ofensas.
Há quem concorde , mas há também quem discorde. O ponto não é  dizer sobre ser ou não a favor e sim explicar de uma forma com que dê para se compreender , aí se é a favor ou contra  é algo muito particular.

Podemos dizer que Cultura é uma teia de aspectos e características criadas pelo homem, sendo elas ideias costumes, leis, crenças  dentre outras que constituem o convívio social. A Cultura é algo abstrato totalmente mutável ela caminha conforme o surgimento de novos hábitos e com a mudança de antigos hábitos.

E  saiba que é totalmente errado você dizer ” fulano não tem cultura.” Não existe homem sem cultura  acontece que o fulano tem a  cultura diferente e divergente a sua.

Para que possamos compreender a apropriação cultural é necessário saber sobre o sistema econômico  em que vivemos.
A partir disto muita coisa fará sentido . O Capitalismo  tem por meio de produção e distribuição através da propriedade privada  com fins lucrativos. E a classe social esta relacionada ao  poder aquisitivo $.$ , sendo assim  será consolidado como classe dominante aquele  X  grupo que detém o poder aquisitivo maior. Logo tudo dentro dentro do Capitalismo pode ser comercializado inclusive a cultura.

Entenda  a apropriação cultural só ocorre dentro do capitalismo, porque dentro da formação deste sistema sócio econômico há uma divisão de classes.

A apropriação cultural ocorre de fato quando há o comercio de algo que é sagrado para um determinado grupo cujo não faz parte, não tem interligação, aculturação e até mesmo intercambio cultural com quem o oferta.

No texto a autora enfatiza ” Não será muito até que a Zara comece a vender pinturas tribais faciais. Ela já vende estampas dashiki*”

Ela utiliza a Zara como exemplo, pois não é uma marca que é destinada aos Africanos,não é acessível a todos os Africanos,e não tem ligação nenhuma com a Cultura Africana . A Marca quebrou o sagrado ,e comercializou um vestuário que possuía valia cultural , desconectou suas raízes e embutiu valor financeiro.

Se isto pode? Dentro da consolidação do sistema capitalista tudo é gerado a partir da produção e distribuição da propriedade privada, ou seja pode! E a afeta apenas os grupos explorados. Aqui no Brasil um dos maiores casos é o que ocorreu com a  Farm .Mas isto de fato ocorre corriqueiramente na indústria da moda,que não há novidade alguma ,nisso!

No ano de 2015 o SPFW em parceria com o Museu Afro – Brasil  trouxe estilistas Africanos para falar sobre a contemporaneidade da arte africana para o Brasil, O Africa Africans  que tinha como proposta promover a moda Africana e a arte Africana. A promoção da Exposição no Museu após o desfile era de tirar toda a concepção caricata do olhar sobre a Moda e a arte Africana.

Talvez você se pergunte ,mas porque não havia artistas e estilistas Brasileiros? Porque a nossa moda Afro- Brasileira está com a sua identidade em  construção muito do que temos sólido até aqui é uma releitura ou copia da moda Africana, O uso demasiado de tecidos africanos para se denominar afro. É nitidamente visto em nossa moda. E Por isto digo ,falar de moda, e sobre moda é dizer sobre todos os assuntos de cunho social, econômico, político  que esta atrelado a concepção da moda tudo ao seu redor é moda.

Baseando-se na construção do Brasil  a sua minoria é constituída por Negros, Indígenas, Nordestinos, homossexuais, idosos, imigrantes dentre outros tantos como é que pode-se dizer que estou me apropriando de uma outra cultura
cuja a minha ancestralidade faz parte.

O termo apropriação vem de tomar para si , dominar , se apropriar de algo e neste artigo há uma sutil provocação em dizer : “ Olha você aponta os apropriadores, mas você faz o mesmo!” E isto Também no AfroPunk.

E então Zipporah Gene aponta : ” Você pega uma vestimenta tradicional, uma pintura ou traço, com toda conotação religiosa e histórica, dilui isso e usa ocasionalmente, quando quer parecer descolado. Pergunte a si mesmo, de que forma isso é melhor?  Não estou tentando começar uma guerra, mas gostaria que todos percebem a hipocrisia que é uma pessoa usar um piercing de septo Fulani, usar um djellaba, usar pinturas típicas dos Yorubás, tudo isso enquanto clama que é uma forma de respeito. É uma miscelânea, uma justaposição, uma bagunça de costumes religiosos, étnicos e culturais que grita ignorância e falta de sensibilidade cultural. Sim, exatamente, mesmo quando utilizados por pessoas negras.”

Na minha cabeça as menções da Zipporah estão muito claras, Como é que você pede respeito desrespeitando o sagrado de outras culturas  usando estes artefatos sagrados? De forma que não os utiliza em seu cotidiano, apenas para se fazer incluído em um determinado grupo, ou local , mesmo que você seja negro, isto também ofende.

Quando ela se refere as pinturas típicas dos Yorubás, ela  também está dizendo sobre nós Brasileiros, Que no período escravista tivemos o maior número de homens africanos escravizados e a sua maioria de origem Yorubá .
Quando ela se remete a caracterização para ser descolado ela impulsiona o olhar sobre o caricato, não são pinturas que usamos no cotidiano , Mas que diz  sobre um cultura que foi conservada durante séculos, sobre tradições africanas que se mantém vivas por meio da cultura de resistência que são as religiões de matrizes africanas aqui no Brasil.

Estas pinturas que vocês usam no rosto é uma caricatura do que? Significa o que?
Será que não ofende ninguém aqui?

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Fotografias de Pierre Verger

49a08acca1417867dfcceb6e21a64035Foto: Barron Claiborne – AFROPUNK – Channelling the Ostrich

O que eu vou usar como base é um artigo que eu uso sempre do Professor Kabengele Munanga o ” Arte Brasileira : O Que é , Afinal?”

Neste artigo o Professor Kabengele Munanga diz:

Para que os elementos culturais ou artísticos possam ser retidos na memória de um indivíduo cortado de suas raízes é preciso que eles pertençam ao seu núcleo de existência,pois este é o último que sobrevive a ruptura.É ele que alimenta a cristalização dos elementos na memória individual e se torna mais eficaz combinado com a preservação e especialmente na continuidade de elementos culturais na nova sociedade.
[…] Podemos concluir que a continuidade e a recriação dos elementos da arte africana no Brasil não foram integrais,porque a totalidade de suas estruturas social,política econômica e religiosa não foi transportada para o novo mundo.” ( Mostra do redescobrimento Arte Afro- Brasileira, pag 100 )

O que temos feito é buscar o resgate a partir da nossa ancestralidade, não analisando que os nossos ancestrais tiveram suas culturas de raiz mutiladas, e que então muito dos seus elementos culturais não foram transportados, como os tecidos africanos ,  os piercings de Septo  que estão embutidos na cultura Fulani, dentre outros artefatos.

Na nossa formação cultural muito pouco destes elementos estão embutidos o grande exemplo são os tecidos, as capulanas que não temos nenhum fundamento histórico na  produção da estamparia Africana aqui no Brasil.
O ponto que é valido lembrar é que  os homens africanos que  aqui foram escravizados vieram com uma herança imaterial
e que foram fincando estas heranças através de seus hábitos, e assim constituindo a cultura Afro-brasileira.

Já nos dias atuais também não há presença de fabricações deste tipo , contudo estamos intercambiando estes materiais através dos imigrantes que aqui se fazem presente . E Existe um porém se você cria algo com base neste tipo de material, logo não atenderá uma demanda por que eles são limitados.
Muito destes tecidos contam histórias de períodos históricos neles podemos encontrar cenas de caça e de guerra,    religião  e política,valores étnicos e morais. Cada cor matriz possui um significado , e eles são essenciais para a identificação dos povos africanos ,por isto  hoje há alguns tecidos como o Kente que são ícones do patrimônio cultural africano no mundo. E os mais desejados com Adinkras são fabricados e utilizados apenas em ocasiões especiais

E o ato da Zipporah Gene de afirmar a apropriação vem do fato de desconectar as raízes destes artefatos  e embutir outros valores, sejam financeiros, ou morais.

A nossa base história tem outros elementos, como as Joias Crioula,a Palha da costa , os búzios e outros elementos que resistiram ao tempo junto com as nossas manifestações culturais de resistência. Para que possamos identifica-los é necessário desmembrar tudo o que foi consolidado aqui a partir da Cultura Africana. Como os  turbantes que aqui tem sua singularidade seu significado devidamente mantido pelas culturas de resistência,e agregado pelas nossa lutas sociais,onde deixa de ser um acessório e passa a contar a historia da construção do empoderamento da mulher negra. Se tornando um dos nossos patrimônios históricos.

Em moda quando falamos sobre  vestuário o colocamos como um  transferidor , nele possui insígnias com características pessoais,sociais e históricas.  E a nossa construção em moda contará com  este período, pois estes elementos estão intimamente ligados a  nossa formação da moda Afro-brasileira, remete-se ao período pelo qual debatemos a edificação da nossa identidade , Porque nós quanto diáspora buscamos através destes elementos um modo de resgatar e reafirmar a nossa negritude.

O Texto Can Black people culturally appropriate one other? –  Pessoas Negras podem se apropriar de outras?
É sobre isto, a África que você abraça se aconchega e sobre os filhos dela desmembrados ao mundo que anulam.
Sobre suas propriedades intelectuais que assimilamos e copiamos.

Então eu te pergunto, neste resgate você não anula aquele de quem você compra o Tecido? Pois há diversos imigrantes africanos invisibilizados. E quais são as políticas de inclusão que estamos desenvolvendo para a interação participação e a manutenção destes imigrantes quanto parte colaborativa  na nossa formação histórica? Você já pensou nisso?

Tendo em vista a situação econômica nacional, por algum momento em sua cabeça passou que estes produtos , podem se tornar artigo de luxo, com a cotação do dólar alta? E que podemos minimizar os gastos, ou até mesmo parar de consumir.
Parando para se analisar  de que hoje muitos destes imigrantes  que vivem do comercio destes produtos o quão é importante políticas inclusivas para a manutenção dos mesmos aqui?  São pontos que precisamos começar a parar para pensar e não apenas como vitimas invisibilizadas mas como pessoas.
O nosso vestuário através preservação deles que se faz político, é deles que vêm o tecido pro turbante colorido, as saias, os vestidos, as pulseiras , a introdução para um moda afro brasileira contemporânea.
Foi através da  perspectiva do Sankofa que nos fez a movimentar para traçar de forma sólida a nossa perspectiva em moda que se faz  presente neste período de construção.

A partir do momento em que compreendermos como parte integrante deste processo, aí sim consigo enxergar o desmembramento das sustentações culturais Brasileira que foram consolidadas  a partir da Cultura Africana.
Sem a influência da moda Afro – Americana.

E você qual é o seu pensamento sobre? Conte para nós!
Se achar melhor compartilhe com os amigos , a introdução ao debate está feita!

O principio para o debate como este é ter empatia ,para com o assunto, e para com as pessoas que possam a vir concordar e principalmente discordar.
E deixar claro que. E que por menor que seja o tema ele é importante para cada um criar o seu pensamento sobre o assunto, ele faz parte de uma desconstrução. 🙂

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1 comentário Adicione o seu

  1. Gostei mto do texto! 🙂

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